terça-feira, 28 de setembro de 2010

O nome dele é Cachorro


Fotos tiradas em Santos, 2010
Cachorro veio em minha direção, me cumprimentar. Porque, sim, cachorros cumprimentam, e também se despedem - e muitas vezes demonstram sua tristeza de cão nestas despedidas. Mas aquele era um momento feliz para Cachorro, e ele veio pessoalmente (caninamente?) me deixar ciente disso.

Não há maior alegria do que a de um cão, e eu explico. Primeiro, porque eles são essencialmente ignorantes: uma dádiva que eu, enquanto um mero ser humano, gostaria muito de ter. Eles desconhecem inúmeras vilezas que fazem parte somente do nosso mundo, e aqui não me orgulho em dizer nosso. Depois, porque são gentis - eu seria capaz de contabilizar o número de gentilezas humanas que recebi, mas isso só ampliaria ainda mais a noção de que a realidade, às vezes, pode ser mesquinha.

Cachorro é amigo de Nana. Presenciou quando ela chegou em casa, esfarrapada, triste. Talvez sofrendo dessa angústia humana do abandono. Deu-lhe o que poderia dar-lhe, ora! Um amigo cão. Quis anular todo o sofrimento, e vê-la feliz, como ele próprio era.

Então, ele tornou-se grande e poderoso, não por ter conquistado o amor de sua Nana, mas por ter sido bom. E gentil. Doou-se em pequenas partes, até que um dia percebeu que não havia perdido nada de si, mas ganhado muito na sua história.

Vai ver por isso, Cachorro veio me cumprimentar alegremente. Veio me mostrar como é a alegria de ser bom, e de amar daquele jeito tão caninamente grande.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Frase do dia

"Não posso ver um cão na rua, nem gosto de olhar. Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão, ver e sentir a matéria de que é feito um cão. É a coisa mais doce que eu já vi, e cão é de uma paciência para com a natureza impotente dele e para com a natureza incompreensível dos outros... E com os pequenos meios que eles tem, com uma burrice cheia de doçura, ele arranja um modo de compreender a gente de um modo direto."

Clarice Lispector

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Lua preta, pretinha

Fotos tiradas em Itanhaém, 12/9/10
Não é simples caminhar pela vida.

Passar, assim, só de passagem, como quem não quer nada, é fácil. Mas caminhar, de fato, não.

Lua sentiu isso na pele, andando por estradas escuras demais para um cão. Escuras demais mesmo para nós. E frias, muito frias.

Mas vai ver faz parte da Lei das Coisas que soframos um pouco antes de obtermos a recompensa final, deve ser assim mesmo que tudo funciona, e ponto. Sentir falta daquilo que devemos buscar, aquele ânimo a mais para uma conquista realmente verdadeira.

E foi então que o dia de Lua chegou. Lua cheia, bem bonita e bem clara, uma alma também bem bonita e bem clara a recuperou da estrada, deu-lhe um lar, uma vida e um nome.

E a cachorra preta, pretinha ganhou luz e calor. Ficou linda e sorridente, e um sorriso de um cão feliz é uma das coisas mais valiosas que se pode ter.

Feliz como muitos de nós gostaríamos de ser, ela corre pela água do mar. Grata por cada minuto de vida que ganhou, e grata pela família que a recebeu.

Também sou grata por terem me recebido, mas não sou cão, e então meus pensamentos aqui não são a prioridade, mas eu e Lua sabemos como nosso coração estava morno e calmo enquanto brincávamos no mar.

Dissemos uma para a outra: então, enfim, tudo está no seu devido lugar. Como sempre deveria ter sido.