quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Luque chega nas estrelas

Fotos tiradas em Santos, em 1/8/10
Ele tem jeito de quem está de bem com a vida. Daqueles seres que você percebe ter algo mais. Uma vontade de viver “apesar de”.

O que mais me comove são os olhos. Lindos olhos de cão. Cão que não sofre, não que a vida seja simples para ele, mas porque ele é simples diante da vida. Quando o coração deseja as pequenas coisas, as familiares, as aconchegantes, tudo fica ensolarado.

E um cotidiano passeio como o dele, faz a sua bondade espalhar.

Ele tem um ar sábio. Porque só os sábios conseguem ser felizes quando o mundo se torna assim tão difícil. E o mundo se torna difícil para mim e para você, todos os dias, e cá estamos tentando nos tornar mais leves. Mais sábios. Mais cão.

domingo, 8 de agosto de 2010

O cachorro com o graveto

Fotos tiradas no Ibirapuera, em 7/8/10

"Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto pelo corpo. Um amor susto. um amor raio trovão fazendo barulho. Me bagunça. E chove em mim todos os dias." Caio Fernando Abreu

O cachorro que corria feliz atrás de um graveto parecia ter encontrado o amor. Ou a coragem de nunca desistir do que considera realmente importante para se viver. E eu sorri para o cachorro, e ele me sorriu de volta, com um graveto na boca, sob um lindo sol e céu azul.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Nana e a Sra. Duas Mãos

Fotos tiradas em Santos, 1/8/10

Nana foi achada na praia, dormindo na areia, embaixo de algumas estrelas. Já fazia algum tempo que vivia daquele jeito, e não se considerava uma cachorra infeliz. Achava que era assim que as coisas funcionavam, e de certa forma sua cabeça de cão nunca perguntara se poderia haver um plano B.

Até que houve o dia em que duas mãos a pegaram no colo, e essas mesmas duas mãos lhe deram de comer. Uma comida quente e de gosto bom: Nana comeu como o animal que era, e seus olhinhos doces e agradecidos sorriram o sorriso dos cães.

Se bem que nós também podemos sorrir com os olhos, se quisermos.

As duas mãos deram-lhe uma cama quente. E, enfim, um lar. Mas Nana sempre pensava como seria a areia da praia onde dormira, e como se sentiria quando voltasse lá. E num ato de rebeldia canina (daqueles atos que nos sentimos orgulhosos de nós mesmos), Nana saiu escondida pela porta dos fundos e caminhou pela noite.

E foi então que sentiu uma inquietação, e não gostou das estrelas como era de costume. Sentiu-se muito só, e apenas pensava nas suas mãos.

Quando adormeceu ao lado do seu brinquedinho que fazia barulho - de plástico rosa sujo e com as marcas de seus dentinhos de adolescente - pensava que agora havia realmente conquistado um lar. E era bom.

Muito bom ter conhecido a Sra. Duas Mãos.


domingo, 1 de agosto de 2010

Marrom e a felicidade repentina

Fotos tiradas em Santos, 01/8/10
Marrom acordou tristinha aquele dia e ninguém pareceu perceber. Quieta e melancólica que era, sentimentos mais tristonhos passavam em branco àqueles que julgavam conhecê-la tão bem. Lá estava ela dentro de sua mudeza de cão, observando o mundo atentamente à procura de algo que a fizesse sorrir.

Pequena e comedida, Marrom não excedia seus limites de cão. Seu corpinho ocupava um pequeno pedaço do espaço, e sua existência um pequeno pedaço do tempo, mas quantos segredos seu coração poderia guardar, sem denunciar nada através de seus olhos tranquilos.

Saiu para a calçada, na esperança de que a visão de outros iguais e outros humanos a fizesse recuperar um pouco do seu bem-estar, perdido em algum momento ali entre a hora de tomar um pouco de água e a hora de comer a ração de todo-dia. Foi exatamente ali, entre um potinho e outro, que deixara sua alegria cair.

Bem que farejou em busca do que foi perdido, por toda a cozinha e por toda a lavanderia, mas ninguém levou a sério essa sua mania de cachorrinha farejadora.

Suas patinhas alcançaram o cimento, alcançaram a grama e a areia. Já sentia uma pontinha de luz surgindo dentro do seu peito, mas ainda não era o suficiente para espantar aquela angústia amassada e esquisita.

Mas, existiu aquele segundo, aquele exato segundo em que sua dona dizia a uma pessoa que "Marrom era muito boazinha" e aquele segundo em que a pessoa quis tirar-lhe uma foto - mesmo sem ainda entender como funcionava essa invenção dos humanos - foi naquele segundo que, fechando os olhinhos, ela se concentrou toda para dentro e então sentiu: um alívio.

Um alívio de não-sabe-o-quê. Um alívio tão indistinto como o mal estar. Simplesmente se foi como simplesmente veio.

O mal-estar vinha da aguda percepção de que vivia, sim, estava viva! Canina e viva!
E o bem-estar vinha da abrupta conscientização de que estava viva! Sim, boazinha e viva.

Problemas de um coração canino



Fotos tiradas em Santos, 31/7/10

Ele caminhava olhando sempre para o horizonte. Ignorava a conversa do casal com quem estava, mas não conseguia ignorar as mãos dadas. Aquilo doía bem no fundo do seu coração.

E ele não se importa se você não acredita que possa ter um pequeno coração canino.

O barulho do mar era calmo, e o final da tarde com aquele sol bonito e aquele calor agradável faziam as pessoas serem felizes. Ou se permitirem alguns momentos de uma leveza quase sempre impossível. As risadas surgiam em seus ouvidos trazidas pelo vento, e passeavam dentro do seu corpo, atravessando seu pêlo. Lá dentro ele parecia oco e vazio.

Se você olhasse toda a cena, de fora, diria: "É só um cachorro cansado de andar na praia!", mas, de dentro dele, ouvia-se um latido: "Sou um cachorro cansado da caminhada." Num tom resignado como se aquele cansaço já fizesse parte da sua identidade.

O casal se dava as mãos e os dedos entrelaçados, vez ou outra, se acariciavam. E aquilo doía.

Mas o que faz aquele cachorro ser maior que sua solitária caminhada? Ele jamais deixava de olhar para o horizonte.