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| Fotos tiradas em Santos, 01/8/10 |
Marrom acordou tristinha aquele dia e ninguém pareceu perceber. Quieta e melancólica que era, sentimentos mais tristonhos passavam em branco àqueles que julgavam conhecê-la tão bem. Lá estava ela dentro de sua mudeza de cão, observando o mundo atentamente à procura de algo que a fizesse sorrir.
Pequena e comedida, Marrom não excedia seus limites de cão. Seu corpinho ocupava um pequeno pedaço do espaço, e sua existência um pequeno pedaço do tempo, mas quantos segredos seu coração poderia guardar, sem denunciar nada através de seus olhos tranquilos.
Saiu para a calçada, na esperança de que a visão de outros iguais e outros humanos a fizesse recuperar um pouco do seu bem-estar, perdido em algum momento ali entre a hora de tomar um pouco de água e a hora de comer a ração de todo-dia. Foi exatamente ali, entre um potinho e outro, que deixara sua alegria cair.
Bem que farejou em busca do que foi perdido, por toda a cozinha e por toda a lavanderia, mas ninguém levou a sério essa sua mania de cachorrinha farejadora.
Suas patinhas alcançaram o cimento, alcançaram a grama e a areia. Já sentia uma pontinha de luz surgindo dentro do seu peito, mas ainda não era o suficiente para espantar aquela angústia amassada e esquisita.
Mas, existiu aquele segundo, aquele exato segundo em que sua dona dizia a uma pessoa que "Marrom era muito boazinha" e aquele segundo em que a pessoa quis tirar-lhe uma foto - mesmo sem ainda entender como funcionava essa invenção dos humanos - foi naquele segundo que, fechando os olhinhos, ela se concentrou toda para dentro e então sentiu: um alívio.
Um alívio de não-sabe-o-quê. Um alívio tão indistinto como o mal estar. Simplesmente se foi como simplesmente veio.
O mal-estar vinha da aguda percepção de que vivia, sim, estava viva! Canina e viva!
E o bem-estar vinha da abrupta conscientização de que estava viva! Sim, boazinha e viva.