segunda-feira, 4 de outubro de 2010

04/10 - Dia do Cão

No Dia do Cão, saiba o que se passa na cabeça do melhor amigo do homem

RENATA RODE

Colaboração para o UOL

Acariciar um cachorro eleva os níveis de imunoglobulina A, anticorpo que atua na prevenção de várias doenças, indicam pesquisas

Impossível não chorar com o filme “Marley e Eu”, além de tantos outros que tratam do relacionamento entre cão e homem. Quem nunca teve um melhor amigo que parecia “entender” tudo? Por isso, no dia 4 de outubro, celebra-se o Dia do Cão, data escolhida por coincidir com a época da morte de São Francisco de Assis, padroeiro dos animais. “Eu costumo dizer que minha cachorra é minha filha, porque ela sente quando estou feliz e me dá apoio nos dias de tristeza. Já chorei muito com ela no meu colo e percebi o respeito a e solidariedade do cão perante uma situação dessas”, diz Isabelle Ishinoua, secretária, que vive em São Paulo com sua cadela Molly, uma cocker dócil e brincalhona.
Mas você já parou para pensar o que se passa na cabeça de um cachorro? Alexandra Horowitz, autora de “A Cabeça do Cachorro” (Editora Best Seller), sim. Ela escreveu o livro que se tornou grande sucesso de crítica e vendas no mundo inteiro. Horowitz é doutora em ciência cognitiva pela University of California, nos Estados Unidos, e relata, em 420 páginas, como esses animais percebem o mundo ao seu redor, além do que os donos devem estimular ou punir, visando o bom relacionamento de ambos.

Em um dos capítulos, a autora faz uma comparação interessante de percepções sobre uma rosa. Nós, seres humanos, temos a flor como um ícone de beleza; consideramos sua cor, seu formato e perfume, além do que ela representa como carga emotiva. Já para o cachorro, a beleza não tem nada a ver com a rosa. A cor é quase inexistente em sua visão, o perfume é ignorado, a menos que seja misturado com um spray de urina recente. Mas, calma, essa comparação não quer necessariamente dizer que eles são ignorantes, apenas visa explicar alguns comportamentos repentinos que nossos amigos adotam de vez em quando.
Sabe-se que o convívio com esses animais traz mais benefícios à saúde humana do que se imagina. “Acariciar um cachorro eleva os níveis de imunoglobulina A, anticorpo importante que atua na prevenção de várias doenças. Essa produção só ocorre porque a troca de carinho entre dono e animal resulta no relaxamento”, ensina Carine Redígolo, coordenadora de uma pesquisa encomendada pela Comissão de Animais de Companhia (COMAC) para o Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo (USP).

Jorge Pereira, um experiente adestrador de animais, vai além: “O amor pelos animais de estimação - devido ao fato de serem companheiros leais dos donos - se traduz em um sentimento difícil de encontrar: o amor incondicional. Mas, em uma sociedade cada vez mais amedrontada pela falta de segurança, com cidadãos altamente estressados e carentes, a ligação exagerada pode se tornar até prejudicial. É necessário amar o cachorro, mas é primordial impor limites”, alerta o especialista.

Assim como lobos, os cães são altamente observadores e procuram aprender com o comportamento de quem está ao seu lado (como se estivesse em uma matilha). Horowitz afirma que o nível de percepção e aprendizado do cachorro vai muito além do que os humanos imaginam. Outra diferença apontada pela autora diz respeito ao tempo. "Podemos dizer que os cães veem o mundo mais rápido do que fazemos, mas o que eles realmente fazem é ver o mundo um pouco mais a cada segundo, porque enxergam entre nossas piscadas. Isso explica por que eles são sempre tão atentos e parecem estar, na maioria das vezes, em eterna prontidão", afirma.

Outra curiosidade apontada no livro de Alexandra Horowitz: os fiéis amigos do homem ouvem barulhos a uma distância muito maior que a nossa, porém não conseguem identificar com precisão de onde vem o som. Assim é comum vermos os cachorros inquietos, cheirando e ouvindo para colher informações a fim de chegar a um veredicto sobre o local que propaga aquilo.

Para Pereira, a troca de carinho entre dono e animal é sentida por ambos os lados. “Eles percebem, sim, o quanto são amados e sabem de sua importância na família. Criam uma ligação de dependência, proteção e solidez com o dono, independentemente da raça do cachorro ou condição social do ser humano.”

Curiosidades sobre eles

O veterinário Youssif Said, do Petshop Cão & Tal, de São Paulo, responde a cinco perguntas engraçadas sobre nossos amigos:

1- Por que eles fazem xixi nos pneus dos carros?

Simplesmente para demarcar território. Qualquer objeto que tenha uma memória olfativa alta (como pneus) é um convite para que o cão urine e deixe sua assinatura para que outros da matilha possam saber que ele passou por ali. O objeto em si (o carro) torna-se então um ponto de referência para o animal.

2- Por que eles rodopiam tanto antes de deitar?

Na natureza os cães costumam fazer buracos na terra para se sentirem mais protegidos ao deitar para o descanso. Há também os cães esquimós que fazem um abrigo para descansarem. Esse rodopio serve para ajustar o local onde vão dormir ou repor as energias, como quando nós arrumamos nossa cama.

3- Por que eles colocam a cabeça para fora do carro?

Para eles colocar a cabeça para fora na janela do carro é como “surfar”, já que a explosão de odores e informações que ele consegue colher em um pequeno passeio é enorme.

4- Por que eles cheiram o bumbum um do outro?

O bumbum é como se fosse uma identificação entre eles e também informa que nível reprodutivo do outro cachorro. Podemos compará-lo ao nosso cartão de visitas, porque o cheiro para eles é repleto de informações.

5- Eles uivam quando estão tristes?

Não. Normalmente uivam quando estão felizes. É um meio de comunicação entre eles, equivale a cantar às vezes, mas é comum entre matilhas.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O nome dele é Cachorro


Fotos tiradas em Santos, 2010
Cachorro veio em minha direção, me cumprimentar. Porque, sim, cachorros cumprimentam, e também se despedem - e muitas vezes demonstram sua tristeza de cão nestas despedidas. Mas aquele era um momento feliz para Cachorro, e ele veio pessoalmente (caninamente?) me deixar ciente disso.

Não há maior alegria do que a de um cão, e eu explico. Primeiro, porque eles são essencialmente ignorantes: uma dádiva que eu, enquanto um mero ser humano, gostaria muito de ter. Eles desconhecem inúmeras vilezas que fazem parte somente do nosso mundo, e aqui não me orgulho em dizer nosso. Depois, porque são gentis - eu seria capaz de contabilizar o número de gentilezas humanas que recebi, mas isso só ampliaria ainda mais a noção de que a realidade, às vezes, pode ser mesquinha.

Cachorro é amigo de Nana. Presenciou quando ela chegou em casa, esfarrapada, triste. Talvez sofrendo dessa angústia humana do abandono. Deu-lhe o que poderia dar-lhe, ora! Um amigo cão. Quis anular todo o sofrimento, e vê-la feliz, como ele próprio era.

Então, ele tornou-se grande e poderoso, não por ter conquistado o amor de sua Nana, mas por ter sido bom. E gentil. Doou-se em pequenas partes, até que um dia percebeu que não havia perdido nada de si, mas ganhado muito na sua história.

Vai ver por isso, Cachorro veio me cumprimentar alegremente. Veio me mostrar como é a alegria de ser bom, e de amar daquele jeito tão caninamente grande.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Frase do dia

"Não posso ver um cão na rua, nem gosto de olhar. Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão, ver e sentir a matéria de que é feito um cão. É a coisa mais doce que eu já vi, e cão é de uma paciência para com a natureza impotente dele e para com a natureza incompreensível dos outros... E com os pequenos meios que eles tem, com uma burrice cheia de doçura, ele arranja um modo de compreender a gente de um modo direto."

Clarice Lispector

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Lua preta, pretinha

Fotos tiradas em Itanhaém, 12/9/10
Não é simples caminhar pela vida.

Passar, assim, só de passagem, como quem não quer nada, é fácil. Mas caminhar, de fato, não.

Lua sentiu isso na pele, andando por estradas escuras demais para um cão. Escuras demais mesmo para nós. E frias, muito frias.

Mas vai ver faz parte da Lei das Coisas que soframos um pouco antes de obtermos a recompensa final, deve ser assim mesmo que tudo funciona, e ponto. Sentir falta daquilo que devemos buscar, aquele ânimo a mais para uma conquista realmente verdadeira.

E foi então que o dia de Lua chegou. Lua cheia, bem bonita e bem clara, uma alma também bem bonita e bem clara a recuperou da estrada, deu-lhe um lar, uma vida e um nome.

E a cachorra preta, pretinha ganhou luz e calor. Ficou linda e sorridente, e um sorriso de um cão feliz é uma das coisas mais valiosas que se pode ter.

Feliz como muitos de nós gostaríamos de ser, ela corre pela água do mar. Grata por cada minuto de vida que ganhou, e grata pela família que a recebeu.

Também sou grata por terem me recebido, mas não sou cão, e então meus pensamentos aqui não são a prioridade, mas eu e Lua sabemos como nosso coração estava morno e calmo enquanto brincávamos no mar.

Dissemos uma para a outra: então, enfim, tudo está no seu devido lugar. Como sempre deveria ter sido.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Luque chega nas estrelas

Fotos tiradas em Santos, em 1/8/10
Ele tem jeito de quem está de bem com a vida. Daqueles seres que você percebe ter algo mais. Uma vontade de viver “apesar de”.

O que mais me comove são os olhos. Lindos olhos de cão. Cão que não sofre, não que a vida seja simples para ele, mas porque ele é simples diante da vida. Quando o coração deseja as pequenas coisas, as familiares, as aconchegantes, tudo fica ensolarado.

E um cotidiano passeio como o dele, faz a sua bondade espalhar.

Ele tem um ar sábio. Porque só os sábios conseguem ser felizes quando o mundo se torna assim tão difícil. E o mundo se torna difícil para mim e para você, todos os dias, e cá estamos tentando nos tornar mais leves. Mais sábios. Mais cão.

domingo, 8 de agosto de 2010

O cachorro com o graveto

Fotos tiradas no Ibirapuera, em 7/8/10

"Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto pelo corpo. Um amor susto. um amor raio trovão fazendo barulho. Me bagunça. E chove em mim todos os dias." Caio Fernando Abreu

O cachorro que corria feliz atrás de um graveto parecia ter encontrado o amor. Ou a coragem de nunca desistir do que considera realmente importante para se viver. E eu sorri para o cachorro, e ele me sorriu de volta, com um graveto na boca, sob um lindo sol e céu azul.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Nana e a Sra. Duas Mãos

Fotos tiradas em Santos, 1/8/10

Nana foi achada na praia, dormindo na areia, embaixo de algumas estrelas. Já fazia algum tempo que vivia daquele jeito, e não se considerava uma cachorra infeliz. Achava que era assim que as coisas funcionavam, e de certa forma sua cabeça de cão nunca perguntara se poderia haver um plano B.

Até que houve o dia em que duas mãos a pegaram no colo, e essas mesmas duas mãos lhe deram de comer. Uma comida quente e de gosto bom: Nana comeu como o animal que era, e seus olhinhos doces e agradecidos sorriram o sorriso dos cães.

Se bem que nós também podemos sorrir com os olhos, se quisermos.

As duas mãos deram-lhe uma cama quente. E, enfim, um lar. Mas Nana sempre pensava como seria a areia da praia onde dormira, e como se sentiria quando voltasse lá. E num ato de rebeldia canina (daqueles atos que nos sentimos orgulhosos de nós mesmos), Nana saiu escondida pela porta dos fundos e caminhou pela noite.

E foi então que sentiu uma inquietação, e não gostou das estrelas como era de costume. Sentiu-se muito só, e apenas pensava nas suas mãos.

Quando adormeceu ao lado do seu brinquedinho que fazia barulho - de plástico rosa sujo e com as marcas de seus dentinhos de adolescente - pensava que agora havia realmente conquistado um lar. E era bom.

Muito bom ter conhecido a Sra. Duas Mãos.